Eleições 2026 · 1º turno · Cidade do Rio de Janeiro

Como votaram as favelas do Rio

Cruzamos o resultado de cada urna do TSE com o mapa oficial das 1.072 favelas da cidade. Para presidente, Lula ficou à frente nos locais de votação dominados por moradores de favela (48,4% × 43,7%), enquanto Flávio Bolsonaro venceu na cidade como um todo. Para governador, Eduardo Paes ficou à frente com folga.

Percentuais de votos válidos nos locais de votação em que a maioria estimada dos eleitores mora em favela; o voto é secreto e a urna não registra endereço, por isso o resultado é uma estimativa geográfica (veja como calculamos). Para governador, os votos em Garotinho (registrados pelo TSE como anulados sub judice) estão na base de cálculo, como na divulgação dos resultados. Os dois cargos terão 2º turno em 25 de outubro.

Favelas × resto da cidade

Nos locais de votação dominados por moradores de favela, Lula fica 4,7 pontos à frente, enquanto na cidade como um todo Flávio Bolsonaro venceu por 4,0. No resto da cidade, nos locais com menos de 50% de eleitores de favela, Flávio teve 48,5% e Lula 43,3%. Quanto mais restrito o recorte às favelas, maior a vantagem de Lula: 52,4% nos locais com 75% ou mais de eleitores de favela e 55,7% nos de 90% ou mais (veja a tabela de critérios).

Presidente

Governador

Comparecimento

Depende de onde f‌ica a favela

Lula vence nos locais de favela de 5 das 6 regiões; Flávio Bolsonaro vence na Zona Oeste. Lula vence inclusive na Zona Norte e em Barra e Jacarepaguá, onde Flávio Bolsonaro ganha no resto da região. A distância para o resto da região é maior em Barra e Jacarepaguá (9,1 pontos a mais para Lula) e na Zona Norte (4,3). No Centro e Zona Portuária, na Zona Sul e na Grande Tijuca, onde o resto da região já vota majoritariamente em Lula, as favelas votam de forma parecida com o entorno, ou até menos em Lula (4,0 pontos a menos no Centro e Zona Portuária). Para governador, Paes vence nos locais de favela de todas as regiões, exceto na Zona Oeste, onde Ruas fica à frente por margem mínima. Na Grande Tijuca, poucos locais entram no recorte principal, e o resultado é menos confiável. Em cada região, a barra "Resto" reúne os locais com menos de 50% de eleitores de favela.

Quem vota nos locais de favela

Perfil do eleitorado

Cadastro de eleitores do TSE (perfil por seção eleitoral): dados de quem está inscrito em cada urna, sem estimativa geográfica. *Renda: rendimento médio dos responsáveis pelos domicílios (Censo 2022) nos setores de onde vêm os eleitores de cada local; esta linha é uma estimativa geográfica.

O voto da favela é só escolaridade ou renda?

Mapa

Favela por favela

Estimativa para cada favela: os moradores são distribuídos entre os locais de votação próximos que têm vaga, e o resultado da favela é a média desses locais, ponderada pelo número de moradores que cada um recebe. Como esses locais também recebem eleitores de fora da favela, o resultado tende a se aproximar do voto do entorno; a confiança indica o quanto os moradores votam em locais dominados por favela (veja como calculamos). Toque numa linha para ver os locais usados e localizar a favela no mapa.

Favela / complexo Região Eleitores (est.) Presidente Governador

O resultado muda com o critério?

Votos válidos nos locais selecionados por cada critério. Escolha o cargo e a cidade inteira ou uma região.

Os critérios "Locais ≥ X% favela" usam só os locais em que a parcela estimada de eleitores de favela atinge X%; "Locais" é quantos locais de votação entram em cada critério (um local é o prédio onde se vota, geralmente uma escola, com várias seções eleitorais, cada uma com sua urna); "Votantes" é quantas pessoas votaram nesses locais. Os critérios por distância contam o local inteiro se ele estiver a até X metros do limite de uma favela. "≥ 90%" é o recorte quase sem mistura com eleitores de fora de favela. O mais votado de cada cargo aparece em negrito.

Como calculamos

O TSE divulga quantos votos cada candidato teve em cada seção eleitoral e onde fica cada local de votação, mas não diz onde o eleitor mora. A análise, portanto, estima de onde vêm os eleitores de cada local e, a partir disso, quais locais são dominados por moradores de favela.

1. Dados

Votos e comparecimento: votação e detalhe da votação por seção eleitoral do 1º turno de 2026, do Portal de Dados Abertos do TSE (arquivo nacional para presidente e arquivo do RJ para governador, gerados em 05 e 06/10/2026). Locais: eleitorado por local de votação 2026, também do TSE, com as coordenadas de cada local e o eleitorado de cada seção. Um local de votação é o prédio onde se vota, geralmente uma escola; cada local tem várias seções, cada uma com sua urna. Na cidade do Rio de Janeiro são 1.450 locais e 12.809 seções. Como as coordenadas são do prédio, a análise soma as seções de cada local.

Favelas: o mapa Limites de Favelas 2022 do Instituto Pereira Passos (IPP/SABREN), com a população de cada favela no Censo 2022 informada pelo próprio IPP, no total 1.072 favelas e 1.351.783 moradores. O IBGE também delimita as favelas da cidade (Favelas e Comunidades Urbanas do Censo 2022), a partir do mesmo cadastro: são 813 áreas com praticamente a mesma população, mas com limites que seguem os setores censitários (e por isso incluem trechos de asfalto) e sem 242 favelas pequenas do IPP. Refeito com a base do IBGE, o resultado principal muda menos de meio ponto. A análise usa o IPP, de limites mais precisos e com os complexos que os cariocas conhecem. Resto da população: setores censitários do IBGE (Censo 2022), com a população de cada setor por faixa etária e a renda dos responsáveis pelos domicílios; fora das favelas, são 4.180.425 moradores com 16 anos ou mais.

2. De onde vêm os eleitores de cada local

  1. Moradores de favela. Cada favela é preenchida com pontos a cada 20 m, e a população da favela com 16 anos ou mais é dividida igualmente entre esses pontos. A proporção de moradores com 16 anos ou mais de cada favela vem dos setores censitários que ficam dentro dela.
  2. Moradores de fora de favela. Cada setor censitário vira um ponto com a sua população de 16 anos ou mais; setores grandes (mais de 0,25 km²) viram uma grade de pontos a cada 250 m. Como os limites do IPP não coincidem exatamente com os setores do IBGE, a parte de cada setor que cai dentro de uma favela é descontada, na proporção da área, para não contar os mesmos moradores duas vezes.
  3. Só quem pode votar. As favelas têm mais crianças que o resto da cidade: 76,9% dos moradores de favela têm 16 anos ou mais, contra 82,1% na cidade como um todo. Por isso a análise usa só a população de 16 anos ou mais (a faixa de 15 a 19 anos do Censo entra com quatro quintos; quando o IBGE oculta faixas de um setor pequeno por sigilo, a proporção é calculada com as faixas disponíveis). Essa população é convertida em eleitores pela razão entre o eleitorado e a população de 16 anos ou mais da cidade (0,95), de modo que o total de eleitores estimados é igual ao eleitorado real.
  4. Distribuição com capacidade. Cada local de votação comporta o seu eleitorado registrado no TSE. Cada morador vai para o local mais próximo que ainda tem vaga. Quando vários moradores disputam o mesmo local, ganha quem mora mais perto, e os que sobram passam para o próximo local com vaga. A distribuição é feita em rodadas, até todos terem lugar. Todos os moradores encontraram vaga. Locais sem coordenada no TSE (presídios e unidades socioeducativas) e locais sem eleitorado não recebem ninguém; seus votos entram apenas no total da cidade.
  5. Parcela de favela. Para cada local, a parcela de favela é o número de eleitores de favela que ele recebeu dividido pelo seu eleitorado.

3. Os números principais

O recorte principal reúne os 163 locais em que a parcela de favela é de pelo menos 50% (634.837 eleitores). Cerca de 69% dos eleitores desses locais moram em favela, e esses locais recebem 45% de todos os eleitores de favela da cidade; os demais votam em locais mistos, onde não são maioria. O resto da cidade são os locais com parcela de favela abaixo de 50%. A cidade inteira é o resultado oficial. Os percentuais são de votos válidos; "votantes" soma válidos, brancos e nulos.

Na tabela de critérios, o mesmo cálculo é refeito com recortes mais estritos (locais com pelo menos 75% e 90% de eleitores de favela) e com um critério puramente geográfico: o local inteiro conta se estiver a até 50, 100 ou 200 metros do limite de uma favela. Quanto mais estrito o recorte por parcela, menor a mistura com eleitores de fora de favela, mas também menos locais na amostra. Os critérios por distância medem outra coisa: escolas na borda de uma favela muitas vezes atendem sobretudo o asfalto vizinho, e por isso esses critérios misturam bem mais eleitores de fora de favela do que os recortes por parcela.

4. Regiões

As regiões seguem as áreas de planejamento da Prefeitura, com a AP2 dividida em Zona Sul e Grande Tijuca: Centro e Zona Portuária (AP1), Zona Sul e Grande Tijuca (AP2), Zona Norte (AP3), Barra e Jacarepaguá (AP4) e Zona Oeste (AP5). Cada local é classificado pelo bairro oficial (limites do IPP) em que está. Em cada região, a barra "Favelas" usa os locais com pelo menos 50% de eleitores de favela e a barra "Resto", os demais locais da região. Regiões com menos de 10 locais no recorte principal são marcadas como amostra pequena.

5. Comparecimento

Abstenção, brancos e nulos vêm do detalhe da votação por seção do TSE, para presidente. A abstenção é a fração dos eleitores aptos que não votaram; brancos e nulos são frações de quem votou. Nos locais do recorte principal, a abstenção foi de 27,1%, contra 26,0% no resto da cidade. Como o cadastro eleitoral inclui pessoas que se mudaram ou morreram e ainda não foram retiradas, a abstenção medida é um pouco maior que a real em toda a cidade.

6. Resultado por favela e mapa

O resultado de cada favela é a média dos resultados dos locais que receberam seus moradores, ponderada pelo número de moradores que cada local recebeu. Complexos somam as favelas que os compõem, conforme o cadastro do IPP; 57 favelas cujo campo de complexo vem vazio no cadastro são tratadas como isoladas. Como esses locais também recebem eleitores de fora da favela, o resultado de uma favela vizinha de bairros de outro perfil tende a se aproximar do voto desses vizinhos. Por isso cada favela traz uma confiança: a parcela média de eleitores de favela nos locais onde seus moradores votam. Ela é alta (60% ou mais) quando os moradores votam em locais dominados por favela, média (40% a 60%) ou baixa (menos de 40%) quando votam em locais mistos; no mapa, as favelas de confiança baixa aparecem com cor mais clara e borda tracejada. O resultado por favela serve para localizar e comparar favelas, não como medida exata do voto dos seus moradores.

7. Perfil do eleitorado, renda e validação

O TSE publica o perfil de quem está inscrito em cada seção eleitoral: escolaridade, faixa etária e sexo, entre outros. Esses dados vêm do cadastro de eleitores e não dependem de nenhuma estimativa geográfica. Cor/raça e identidade de gênero ainda vêm sem informação para cerca de 70% dos eleitores e não foram usadas. A renda do entorno de cada local é a renda média dos responsáveis pelos domicílios (Censo 2022) nos setores de onde vêm seus eleitores, conforme a distribuição acima; ela é, portanto, uma estimativa geográfica. Nos locais do recorte principal, essa renda é de R$ 2.257, contra R$ 4.556 no resto da cidade.

Esses dados servem para três coisas: descrever quem vota nos locais de favela; validar a estimativa, já que, se ela estiver certa, os locais com mais eleitores de favela devem ter eleitorado de escolaridade mais baixa (a correlação entre a parcela de favela e a fração de eleitores sem ensino fundamental completo é de 0,47); e comparar locais de favela e do resto da cidade com escolaridade ou renda parecida, para ver se o voto da favela é só um reflexo delas. Essa comparação usa faixas da fração de eleitores sem fundamental completo ou da renda do entorno; faixas com menos de 5 locais de favela ficam sem comparação.

8. Conferência

A soma de todas as seções da cidade foi comparada, candidato a candidato, com o total oficial do município divulgado pelo TSE: bate voto a voto (3.471.874 votos nominais para presidente e 3.295.292 para governador).

9. Garotinho

O TSE registra os votos de Anthony Garotinho (Republicanos) como "anulado sub judice". Seguindo a forma como os resultados foram divulgados (Paes com 52,52% na cidade), esses votos estão incluídos na base dos percentuais de governador; nos locais do recorte principal, somam 8.615 votos. Se fossem excluídos, os percentuais dos demais candidatos subiriam um pouco (Paes iria a 53,5% na cidade), sem mudar quem lidera em cada lugar. A situação pode mudar com decisões judiciais.

10. Limitações

É uma inferência ecológica: o voto é secreto, e o resultado de um local mistura moradores de favela e vizinhos. A distribuição supõe que cada eleitor vota perto de casa, mas muita gente vota longe, porque o título continua no endereço de quando se registrou. A estrutura etária e a renda são as do Censo de 2022, e a razão entre eleitores e população de 16 anos ou mais é a mesma em toda a cidade, embora a inscrição eleitoral possa variar entre bairros. As coordenadas do TSE têm imprecisões pontuais. Cidade de Deus e outros conjuntos habitacionais não constam como favela no cadastro do IPP e, por isso, ficam fora da análise.