Favelas × cidade inteira
Nos locais de votação onde a maioria dos eleitores mora em favela, Lula fica 5,4 pontos à frente, enquanto na cidade como um todo Flávio Bolsonaro venceu por 4,0 pontos. No restante da cidade (os demais locais de votação), Flávio teve 48,4% e Lula 43,4%. Quanto mais restrito o recorte às favelas, maior a vantagem de Lula: 53,2% nos locais com 75% ou mais de eleitores de favela e 55,8% nos de 90% ou mais (veja a tabela de critérios).
Comparecimento
Depende de onde fica a favela
Lula vence nos locais de favela de 5 das 6 regiões; Flávio Bolsonaro vence na Zona Oeste. Lula vence inclusive na Zona Norte e em Barra e Jacarepaguá, onde Flávio Bolsonaro ganha no restante da região. A distância para o restante da região é maior em Barra e Jacarepaguá (10,2 pontos a mais para Lula) e na Zona Sul (5,3). No Centro e Zona Portuária, onde o restante da região já vota majoritariamente em Lula, as favelas votam menos em Lula que o entorno (4,1 pontos a menos). Para governador, Paes vence nos locais de favela de todas as regiões, exceto na Zona Oeste, onde Ruas fica à frente por margem mínima. Na Grande Tijuca, poucos locais entram no recorte principal, e o resultado é menos confiável. Em cada região, a barra "Restante" reúne os demais locais da região.
Quem vota nos locais de favela
Perfil do eleitorado
Cadastro de eleitores do TSE (perfil por seção eleitoral): dados de quem está inscrito em cada urna, sem estimativa geográfica. *Renda e evangélicos: Censo 2022, de onde vêm os eleitores de cada local; a renda é o rendimento médio dos responsáveis pelos domicílios de cada setor, e a religião é a das pessoas de 10 anos ou mais da área de ponderação (cerca de 30 mil moradores). Essas linhas são estimativas geográficas.
O voto da favela é só escolaridade, renda ou religião?
Mapa
Favela por favela
Estimativa para cada favela: os moradores são distribuídos entre os locais de votação próximos que têm vaga, e o resultado da favela é a média desses locais, ponderada pelo número de moradores que cada um recebe. Como esses locais também recebem eleitores de fora da favela, o resultado tende a se aproximar do voto do entorno; a confiança indica o quanto os moradores votam em locais onde a maioria dos eleitores mora em favela (veja como calculamos). Por padrão, aparecem só as favelas de confiança média ou alta; a busca por nome encontra todas. Toque numa linha para ver os locais usados e localizar a favela no mapa.
| Favela / complexo | Pres. | Gov. |
|---|
O resultado muda com o critério?
Votos válidos nos locais selecionados por cada critério. Escolha o cargo e a cidade inteira ou uma região.
Os critérios "Locais ≥ X% favela" usam só os locais em que a parcela estimada de eleitores de favela atinge X% e o perfil do eleitorado no TSE é compatível com isso (veja como calculamos); "Locais" é quantos locais de votação entram em cada critério (um local é o prédio onde se vota, geralmente uma escola, com várias seções eleitorais, cada uma com sua urna); "Votantes" é quantas pessoas votaram nesses locais. Os critérios por distância contam o local inteiro se ele estiver a até X metros do limite de uma favela. "≥ 90%" é o recorte quase sem mistura com eleitores de fora de favela. O mais votado de cada cargo aparece em negrito.
Como calculamos
O TSE divulga quantos votos cada candidato teve em cada seção eleitoral e onde fica cada local de votação, mas não diz onde o eleitor mora. A análise, portanto, estima de onde vêm os eleitores de cada local e, a partir disso, em quais locais a maioria dos eleitores mora em favela.
1. Dados
Votos e comparecimento: votação e detalhe da votação por seção eleitoral do 1º turno de 2026, do Portal de Dados Abertos do TSE (arquivo nacional para presidente e arquivo do RJ para governador, gerados em 05 e 06/10/2026). Locais: eleitorado por local de votação 2026, também do TSE, com as coordenadas de cada local e o eleitorado de cada seção. Um local de votação é o prédio onde se vota, geralmente uma escola; cada local tem várias seções, cada uma com sua urna. Na cidade do Rio de Janeiro são 1.450 locais e 12.809 seções. Como as coordenadas são do prédio, a análise soma as seções de cada local.
Favelas: o mapa Limites de Favelas 2022 do Instituto Pereira Passos (IPP/SABREN), com a população de cada favela no Censo 2022 informada pelo próprio IPP, no total 1.072 favelas e 1.351.783 moradores. População fora das favelas: setores censitários do IBGE (Censo 2022), com a população de cada setor por faixa etária e a renda dos responsáveis pelos domicílios; fora das favelas, são 4.180.425 moradores com 16 anos ou mais.
2. De onde vêm os eleitores de cada local
- Moradores de favela. Cada favela é preenchida com pontos a cada 20 m, e a população da favela com 16 anos ou mais é dividida igualmente entre esses pontos. A proporção de moradores com 16 anos ou mais de cada favela vem dos setores censitários que ficam dentro dela; favelas pequenas demais para conter um setor usam a média das favelas.
- Moradores de fora de favela. Cada setor censitário vira um ponto com a sua população de 16 anos ou mais; setores grandes (mais de 0,25 km²) viram uma grade de pontos a cada 250 m. Como os limites do IPP não coincidem exatamente com os setores do IBGE, a parte de cada setor que cai dentro de uma favela é descontada, na proporção da área, para não contar os mesmos moradores duas vezes.
- Só quem pode votar. As favelas têm mais crianças que a cidade como um todo: 76,9% dos moradores de favela têm 16 anos ou mais, contra 82,1% na cidade como um todo. Por isso a análise usa só a população de 16 anos ou mais (a faixa de 15 a 19 anos do Censo entra com quatro quintos; quando o IBGE oculta faixas de um setor pequeno por sigilo, a proporção é calculada com as faixas disponíveis). Essa população é convertida em eleitores pela razão entre o eleitorado e a população de 16 anos ou mais da cidade (0,95), de modo que, somada, essa população equivale ao eleitorado real.
- Distribuição com capacidade. Cada local de votação comporta o seu eleitorado registrado no TSE. Cada morador vai para o local mais próximo que ainda tem vaga. Quando vários moradores disputam o mesmo local, ganha quem mora mais perto, e os que sobram passam para o próximo local com vaga. A distribuição é feita em até doze rodadas. Ninguém vai para um local a mais de 2 km: quem não encontra vaga até essa distância fica sem local na estimativa. Isso acontece onde há mais moradores do que eleitores inscritos por perto, como em bairros que cresceram e em favelas onde muitos moradores votam na cidade de origem. Ficam assim 14% dos eleitores de favela, que não entram nas estimativas. A fração varia entre as regiões: vai de 1% no Centro e Zona Portuária a 36% em Barra e Jacarepaguá. Quando o TSE transfere uma seção para um local substituto sem coordenada (uma escola em obra, por exemplo), usamos a coordenada do local original.
- Parcela de favela. Para cada local, a parcela de favela é o número de eleitores de favela que ele recebeu dividido pelo seu eleitorado.
3. Os números principais
O recorte principal reúne os 131 locais em que a parcela de favela é de pelo menos 50% e o perfil do cadastro do TSE é compatível com isso (509.729 eleitores). Ficam de fora os locais em que os dois indicadores de escolaridade do cadastro contradizem a estimativa: mais de 15% dos eleitores com ensino superior completo e menos de 20% sem fundamental completo. Nos locais com 90% ou mais de eleitores de favela, as medianas são de 2,0% com superior completo e 38% sem fundamental completo. Nesses casos, a parcela estimada é provavelmente erro da distribuição geográfica, que às vezes enche de moradores de favela uma escola de bairro de classe média. Por esse motivo, 7 locais saíram do recorte; o mesmo filtro vale para os recortes de 75% e 90%. Cerca de 71% dos eleitores desses locais moram em favela, e esses locais recebem 37% de todos os eleitores de favela da cidade. Os demais se dividem assim: 48% do total votam em locais onde não são maioria, 14% ficam sem local a até 2 km e 1% vota nos locais excluídos pelo filtro de perfil. A cidade inteira é o resultado oficial. Onde o texto compara a favela com o restante da cidade ou da região, são os demais locais de votação, fora do recorte principal. O restante não é a cidade sem as favelas: nele votam também os eleitores de favela que moram onde não são maioria. Os percentuais são de votos válidos; "votantes" soma válidos, brancos e nulos.
Na tabela de critérios, o mesmo cálculo é refeito com recortes mais estritos (locais com pelo menos 75% e 90% de eleitores de favela) e com um critério puramente geográfico: o local inteiro conta se estiver a até 50, 100 ou 200 metros do limite de uma favela. Quanto mais estrito o recorte por parcela, menor a mistura com eleitores de fora de favela, mas também menos locais na amostra. Os critérios por distância medem outra coisa: escolas na borda de uma favela muitas vezes atendem sobretudo o asfalto vizinho, e por isso esses critérios misturam bem mais eleitores de fora de favela do que os recortes por parcela.
4. Regiões
As regiões seguem as áreas de planejamento da Prefeitura, com a AP2 dividida em Zona Sul e Grande Tijuca: Centro e Zona Portuária (AP1), Zona Sul e Grande Tijuca (AP2), Zona Norte (AP3), Barra e Jacarepaguá (AP4) e Zona Oeste (AP5). Cada local é classificado pelo bairro oficial (limites do IPP) em que está. Em cada região, a barra "Favelas" usa os locais do recorte principal e a barra "Restante", os demais locais da região. Regiões com menos de 10 locais no recorte principal são marcadas como amostra pequena.
5. Comparecimento
Abstenção, brancos e nulos vêm do detalhe da votação por seção do TSE, para presidente. A abstenção é a fração dos eleitores aptos que não votaram; brancos e nulos são frações de quem votou. Nos locais do recorte principal, a abstenção foi de 26,7%, contra 26,1% na cidade inteira. Como o cadastro eleitoral inclui pessoas que se mudaram ou morreram e ainda não foram retiradas, a abstenção medida é um pouco maior que a real em toda a cidade.
6. Resultado por favela e mapa
O resultado de cada favela é a média dos resultados dos locais que receberam seus moradores, ponderada pelo número de moradores que cada local recebeu. Complexos somam as favelas que os compõem, conforme o cadastro do IPP; 57 favelas cujo campo de complexo vem vazio no cadastro são tratadas como isoladas. Como esses locais também recebem eleitores de fora da favela, o resultado de uma favela vizinha de bairros de outro perfil tende a se aproximar do voto desses vizinhos. Por isso cada favela traz uma confiança: a parcela média de eleitores de favela nos locais onde seus moradores votam. Ela é alta (60% ou mais) quando os moradores votam em locais onde a maioria dos eleitores mora em favela, média (40% a 60%) ou baixa (menos de 40%) quando votam em locais mistos. A confiança também é baixa quando menos da metade dos moradores tem local com vaga a até 2 km: nesse caso, o resultado vale só para os que têm. Por padrão, a tabela mostra só as favelas de confiança média ou alta, e no mapa as de confiança baixa ficam em cinza. Elas não são poucas: 817 das 1.062 favelas com moradores, com 47% dos moradores de favela. A busca por nome encontra todas, e o resultado de qualquer favela aparece ao tocá-la no mapa; uma opção mostra as de confiança baixa na tabela e no mapa, com cor mais clara e borda tracejada. O resultado por favela serve para localizar e comparar favelas, não como medida exata do voto dos seus moradores.
7. Perfil do eleitorado, renda, religião e validação
O TSE publica o perfil de quem está inscrito em cada seção eleitoral: escolaridade, faixa etária e sexo, entre outros. Esses dados vêm do cadastro de eleitores e não dependem de nenhuma estimativa geográfica. Cor/raça e identidade de gênero ainda vêm sem informação para mais de 80% dos eleitores e não foram usadas. A renda do entorno de cada local é a renda média dos responsáveis pelos domicílios (Censo 2022) nos setores de onde vêm seus eleitores, conforme a distribuição acima; ela é, portanto, uma estimativa geográfica. Nos locais do recorte principal, essa renda é de R$ 2.005, contra R$ 4.415 na cidade inteira. A religião do entorno segue o mesmo caminho: cada morador recebe a fração de evangélicos da sua área de ponderação do Censo 2022 (regiões de cerca de 30 mil moradores, para as quais o IBGE publica os resultados da amostra, que inclui a pergunta sobre religião), e cada local fica com a média de quem vota nele. Nos locais do recorte principal, 27% das pessoas de 10 anos ou mais são evangélicas, contra 25% na cidade inteira. Como a área de ponderação é grande, uma favela pequena fica com a religião do bairro em volta.
Esses dados servem para três coisas: descrever quem vota nos locais de favela; validar a estimativa, já que, se ela estiver certa, os locais com mais eleitores de favela devem ter eleitorado de escolaridade mais baixa (a correlação entre a parcela de favela e a fração de eleitores sem ensino fundamental completo é de 0,50, em todos os locais da cidade); e comparar locais de favela e do restante da cidade com escolaridade, renda ou religião parecida, para ver se o voto da favela é só um reflexo delas. Essa comparação usa faixas da fração de eleitores sem fundamental completo, da renda do entorno ou da fração de evangélicos do entorno; faixas com menos de 5 locais de favela ficam sem comparação. Dos dois lados, só entram locais que passam pelo filtro de perfil do recorte principal.
8. Conferência
A soma de todas as seções da cidade foi comparada, candidato a candidato, com o total oficial do município divulgado pelo TSE: bate voto a voto (3.471.874 votos nominais para presidente e 3.295.292 para governador).
9. Garotinho
O TSE registra os votos de Anthony Garotinho (Republicanos) como "anulado sub judice". Seguindo a forma como os resultados foram divulgados (Paes com 52,52% na cidade), esses votos estão incluídos na base dos percentuais de governador; nos locais do recorte principal, somam 7.249 votos. Se fossem excluídos, os percentuais dos demais candidatos subiriam um pouco (Paes iria a 53,5% na cidade), sem mudar quem lidera em cada lugar. A situação pode mudar com decisões judiciais.
10. Limitações
É uma inferência ecológica: o voto é secreto, e o resultado de um local mistura moradores de favela e vizinhos. A distribuição supõe que cada eleitor vota perto de casa, mas muita gente vota longe, porque o título continua no endereço de quando se registrou. A estrutura etária, a renda e a religião são as do Censo de 2022, e a razão entre eleitores e população de 16 anos ou mais é a mesma em toda a cidade, embora a inscrição varie entre bairros: bairros mais velhos e ricos têm mais eleitores inscritos por adulto, e favelas têm menos, porque muitos moradores votam na cidade de origem. O limite de 2 km e o filtro de perfil existem para conter esse efeito, que sem eles levava moradores de favela a escolas distantes com vaga sobrando. Todos com 16 anos ou mais contam igualmente, embora só cerca de 15% dos jovens de 16 e 17 anos estejam inscritos; como as favelas têm mais jovens, isso superestima um pouco os eleitores de favela. Na base do IPP, a população de cada favela é espalhada de modo uniforme pelo polígono; somada aos setores, a população de 16 anos ou mais da cidade fica cerca de 2% acima da do Censo, o que reduz um pouco as parcelas de favela. As coordenadas do TSE têm imprecisões pontuais. Cidade de Deus e outros conjuntos habitacionais não constam como favela no cadastro do IPP e, por isso, ficam fora da análise.